terça-feira, 7 de outubro de 2008

ANTI-HERÓIS

Por Raphael Castro


O mundo, deve-se reconhecer, não é feito apenas de heróis. Esses heróis perfeitinhos, impolutos, barbeados, "com cara de baby johnson", insuportável e politicamente corretos. A idéia, admita-se, é bem divertida: por exemplo, e se de repente o Batman acordasse e dissesse "pô, hoje eu não tô com saco..."?; e se o Super-Homem (epa, ainda tem hífen aqui...?), em vez de se degladiar com um maníaco-depressivo careca, simplesmente se dedicasse a uma super...bem, a uma super "vocês-sabem-o-quê" com a sua amada Lois Lane. Portanto, é mais fácil crer que tem por aí gente muito mais "humana" (mas capaz de grandes feitos) do que o contrário...


Prossegue


Outra vertente do chamado "anti-herói" (de novo, ainda tem hífen aqui...?) é aquele sujeito meio canalha, mas que consegue nos cativar, pela capacidade de certos desprendimentos em determinados momentos (com o perdão da rima pobre), sem abrir mão da própria natureza. Um bom exemplo seriam aqueles heróis de filmes "capa-espada" (me ocorrem agora Han Solo e Jack Sparrow - para os mais saudosos, iríamos de Bogart e seu Rick Blaine, no filme Casablanca...).


Taxonomia


E, finalmente, como último degrau nessa tipologia dos anti-heróis, teríamos aqueles que, absolutamente desajeitados e engraçados, conseguem os tais "grandes feitos" lá do primeiro parágrafo. Aqui a lista é farta: teríamos de Chaplin a Woody Allen, de Buster Keaton a Harold Lloyd, em direção a Indiana Jones e Mr. Bean, passando até mesmo de Kleber Bam-Bam a Diego Alemão (ok, sacrilégio, eu sei, mas era importante pra passar o ponto...).


Mas e...?


Por que a longa introdução acima? Simples, porque termos em nossas fileiras verdadeiros anti-heróis - inclusive o maior deles no nosso gol: Clemer é capaz de defesas notáveis e batatadas memoráveis. Não tenho nada pessoal contra o arqueiro colorado (pois é, o mais vitorioso de todos, blábláblá e tal...), mas, e é preciso que se diga, algumas das maiores derretidas que o Inter deu nos últimos anos podem (devem?) ser debitadas na conta do goleiro. O triunvirato que compartilhava com Iarley e Fernandão de certa forma parece lhe ter subido à cabeça como saquê – sem trocadilho - em dia quente. Quando criticado (e, sim, é muito chato ser criticado), consta a suposta emissão de frases compreendendo pretensos deveres de lhe "fazerem uma estátua" ou de lhe "darem o Beira-Rio de presente", como dívidas de gratidão eterna. Este, portanto, quando acompanhado das salvadas incríveis que ele já nos deu, seria o lado "cadelão" do goleiro, então alçado à condição de um "Capitão Rodrigo", um "Macunaíma" da bola, beirando uma cafajestagem meio adorável, aos moldes de um "Leonardo Pataca" futebolístico - enfim, o quase-canalha pelo qual todos torcíamos e que todos adorávamos odiar...


Proporcional


Só que a lista de bizarrices do moço avança um pouco mais, proporcionalmente às grandes defesas do que costuma ocorrer com seus colegas de profissão. Clemer já está eternizado e entronizado em nossas memórias pelas defesas à queima-roupa com Alex Dias e do petardo de Deco. Aliás, a rigor, o arqueiro já vive – e viverá muito ainda - dessas duas defesas há muito tempo: seus erros parecem ser o preço cobrado pelos deuses do futebol em retribuição à sua incrível sorte, formada de contusões, hepatites e outras mazelas – lembro que sempre que o goleiro perdeu a titularidade, algo (meio misterioso) acontecia para lhe restabelecer seu lugar "de direito". Portanto, a meu humilde ver, o seu tipo é exatamente aquele que, aos trancos e barrancos, fez muita gente feliz – os outros, inclusive - e chegou a lugares jamais sonhados por muitos (e bons) de seus colegas, fazendo também o povo vermelho sonhar e vibrar. Um viva, pois, ao nosso anti-herói: salve, Clemer Batatada, o nosso Didi Mocó da bola, o nosso Rafinha Verdureiro...


Pra não esquecer


A lista de anti-heróis não terminaria no goleiro, claro, embora ele nos pareça ser o seu mais ilustre e óbvio exemplo. Nós os temos ainda na casamata e na direção do clube, mas isso é assunto pra outro dia (como diria o meu avô, S.Assis P.Ererê, "quem mateia com pressa dá bom dia pro vaso...").


Tópicas: constatação

Vi, impotente e entristecido, a nossa Libertadores 2009 escorrer desgraçadamente entre os dedos da mão de Clemer e do pé de Índio; violência esta quase tão grande quanto sofrer um gol dos aflitos...


Tópicas 2: segunda constatação

Queriam tanto a Sul-Americana que agora é só o que irão disputar. Espero, sinceramente, que tenha valido a pena...


Bem, caros leitores, por enquanto é só isso – e ponto final.


Fui (e não a pé).

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