terça-feira, 18 de novembro de 2008

A CULPA É NOSSA TAMBÉM

Por Daniel Ricci Araújo

Interessantes as repercussões advindas da decisão do nosso Tribunal de Justiça que absolveu os supostos autores do incêndio no famoso "Gre-Nal dos banheiros químicos" de 2006. A maioria das pessoas fala em impunidade e falta de confiança na justiça. Há desgostos para todos os tipos: as instituições públicas não prestam, as decisões judiciais são risíveis, as autoridades cometem escândalos. Raivas e ódios acentuam-se. A sentença final é clara e cega como a ponta da faca nas mãos de uma criança. A culpa é do Tribunal. E é claro – ele pode mesmo ter errado.

Não estou aqui para defender nem acusar ninguém, e muito menos a minha circunstância de ser filho de magistrado (o que não passa de um laço de parentesco, mas para alguns é motivo de tacanhices e pequenices mil) influi em meus pensamentos. À indignação da massa, presenteada com uma decisão supostamente "impossível" e injusta, quero somar a minha: gostaria muito de ver aqueles filhinhos-de-papai-indignadinhos-com-nosso-sucesso-internacional lavando banheiros públicos por alguns anos. Mas as coisas não funcionam assim.

É justo responsabilizar quatro ou cinco indivíduos porque um grupo indeterminado de pessoas vibrou com a fumaça de um banheiro químico em chamas simplesmente porque estavam no calor do jogo? Alguém quer mesmo essa "justiça" de sensações? Quem é o primeiro, então, disposto a censurar o torcedor da social que pejorativamente chama Andrezinho de "negrão" quando ele erra um passe? Afinal de contas, sejamos francos: à torcida colorada naquele dia o maior sentimento trazido foi o de despeito, o de raiva ao ver uma trupe de gremistas saudando bem alto a molecagem protagonizada por uma meia-dúzia de rapazes de bom berço.

Não sei se havia nos autos do processo provas ou não o suficientes para que alguém fosse considerado culpado. No entanto, foi o desrespeito institucional que nos indignou, nos calou fundo, nos deu vontade de, na emoção do momento, disparar mini-ogivas nucleares em direção àquela parte do estádio. Mas, afinal de contas, cantos de torcida são um crime, por mais de mal gosto que sejam? Não, não são.

Não sei se a decisão judicial foi acertada (e aqui dou uma modesta contribuição à consciência geral: desconfiem muito, desconfiem totalmente do advogado que, sem ver o processo ou inteirar-se bem de um caso, recita ao seu cliente ou à sua platéia a tese que ela mais quer ouvir). E até digo mais: afinal de contas, não havia fotos em alta definição e imagens de TV mostrando os infratores no exato momento no qual cometiam o delito? Também tenho essa dúvida, como todos vocês, e gostaria de saber detalhadamente como os julgadores chegaram à conclusão de que não foi possível identificar os autores da bagunça. Mesmo assim, vejo um tremendo oportunismo em nomear a decisão do tribunal como um convite indiscutível à impunidade.

A esfera privada gosta muito de debitar seus erros na conta pública, e insinuar que o Tribunal de Justiça acaba de dar um salvo conduto para essas atitudes é, no mínimo, fazer tábula rasa da nossa responsabilidade. É, isso mesmo: nossa responsabilidade, minha e sua.

Afinal de contas, ponhamos o dedo na ferida: bravíssimos com a sentença judicial de agora, e esbravejando contra um alvo fácil aos olhos das pessoas - um Tribunal de "autoridades" - por que todos os cronistas não se insurgem com a mesma indignação contra a diretoria do Grêmio, que tem uma longa biografia de leniência e permissividade para com os distúrbios provocados por alguns integrantes (só alguns, claro) da sua "banda mais louca"? Claro, o mesmo vale para as nossas torcidas quando uma de nossas organizadas fizer coisas semelhantes. E nós? Nós, torcedores comuns, que nos chamamos de "macacos" e "gaymistas" e que damos aos nossos comportamentos muitas vezes inadequados a desculpa do hábito, estamos ajudando? Estamos desarmando os ânimos ou os deixando perigosamente em banho-maria?

Ora, o jornalismo investigativo, onde está? Por que nenhum Caco Barcellos futebolístico teve a coragem de mostrar contundentemente, para todos verem, o que acontece de verdade no seio dos "hinchas" pseudomodernos que só querem confusão? E as torcidas? Quais as atitudes concretas tomadas contra esses marginais de meia-tigela infiltrados em seu meio?

Mas não é só isso. Falemos também do outro braço do poder público. Afinal de contas, não foi de um instante para outro que os banheiros foram levados para dentro da arquibancada e queimados. Onde estava a Brigada Militar durante aqueles preciosos minutos? E aí depois, quando um grupo de pessoas é absolvido numa decisão judicial por motivos que podem ser os mais variáveis, a culpa é só da Justiça? A realidade: essa indignação popular com o caso autorizou que algumas vozes levantassem o volume para defender a "opinião pública". Mas a multidão é uma bengala fácil tanto quanto uma afoita conselheira. Foi ela quem pediu Barrabás e condenou Jesus, lembram?

A lei deve ser respeitada por todos, e o fato de o Judiciário ter o dever de fazê-la cumprir não o torna mais importante nessa função do que nós, a sociedade civil. Não temos o direito de omitir-nos e nem delegar à Justiça um papel majoritariamente nosso, o de conhecer o limite no qual termina nossa liberdade e começa a do outro. Dizer que pagamos nossos impostos é fácil, mas nós sim temos é que de dar a primeira palavra quando se fala em "ordem e progresso". Será que fazemos isso? Podemos avançar o sinal vermelho, sonegar ICMS, declarar ardilosamente nosso Imposto de Renda e jogar lixo no chão à vontade: sempre haverá um mensalão ou uma sentença comprada para nos aliviar as culpas. E quando uma decisão judicial, errada ou não, toma as nossas dores e nos dá o poder de nos eximirmos de nossas responsabilidades como um todo, voilá: aí está a indignação que alivia.

Todos estão livres para, ao fim e ao cabo, perder a confiança na Justiça. Se você acha que os principais culpados dos próximos incidentes em estádios de futebol serão os Desembargadores que absolveram alguns torcedores malucos, tudo bem, é seu direito. Talvez você até esteja certo, e eles errados. Mas mesmo assim as coisas seriam mais fáceis se todos nós fôssemos um pouco mais cidadãos.

Pelo menos os Desembargadores teriam menos processos para julgar.

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