quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O MEU GURI

Por Marcelo Benvenutti


Diversas vezes, quando perguntado sobre a liberdade que encontrava como jogador para criar no meio campo colorado no timaço dos anos 70, Falcão não titubeia e admite que se não existisse na frente da área um roçador chamado Caçapava, ficaria muito mais difícil ele ter liberdade para atuar. No Colorado do começo dos 80, quando eu já ia ao estádio regularmente, existia um volante, um alemão que veio do Paraná e que segurava as pontas na frente da área daquele time que foi tetracampeão gaúcho e, entre outros torneios, venceu o Joan Gamper no Nou Camp lotado para ver a estréia da estrela argentina, um tal de Maradona. Pois esse alemão, Ademir Kaefer, segurava a bronca na frente área até mesmo do Dunga, que nessa época no Inter jogava com a 8 e deixava a 10 para o craque Rubén Paz. Era uma época em que os meio-campos se definiam pelos números 5-8-10. Centromédio, não era volante, meia-direita e meia-esquerda. Aquele grupo da primeira metade dos anos 80 não era ruim, mas era uma época em que já se vislumbrava a Idade Média da recente história vermelha.

Nos tenebrosos anos 90, que até começaram bem com uma conquista de Copa do Brasil e a primeira visita deles no andar de baixo, vulgo Segundona, surgiu na final contra o Fluminense um volante, quase uma cópia do Kaefer, vigoroso e que surgia como uma grande promessa. Durante os seis ou sete anos seguintes, tornou-se um símbolo, junto com o zagueiro Argel, daquele Inter que brigava para passar de fase e remava até mesmo em Gauchões. Eu chamava ele de Anderson choradeira, pois cada vez que o Inter era eliminado, e não eram poucas essas vezes, ele, envergonhado, chorava copiosamente. Muitos depois o conheceriam pelo famoso caso do pão com papoula que quase lhe custou uma suspensão por doping.

Pois o conheci por outro nome certa vez. Era um jogo qualquer da extinta Copa Sul – que depois virou Sul-Minas. Eu era sócio duma daquelas épocas que o Inter de Asmuz sorteava ingressos em raspadinhas. A torcida do Inter, mesmo que com um time miserável, depois de duas vitórias seguidas, no terceiro jogo já quase lotava o estádio. Numa dessas seqüências, me acomodei nas sociais, aonde tinha bancos, quase embaixo das cabines de rádio, e esperei pelo começo da partida. Ao meu lado, sentou-se um casal. Casais não eram presenças freqüentes nos estádios.

Diz a lenda que estádio era lugar para se levar a amante. Pois logo depois sentou do outro lado do banco um daqueles clássicos bebuns azucrinadores. Daqueles que "subornavam" o vendedor de cerveja para conseguir comprar cigarro do lado de fora do estádio. Enquanto não secava a bunda da namorada do cara do outro lado, tanto até o casal trocar de lugar, o bebum só se detinha quando Anderson tocava na bola. A torcida da social, sempre cruel e vingativa, vaiava o Anderson até em cobrança de lateral. Era o Edinho da vez. O bebum do lado, cada vez mais irado, discutia com os outros torcedores e apoiava o Anderson. Até que num lance, daquelas divididas no meio-campo, Anderson roubou a bola do adversário e deu um passe certeiro para um contra-ataque. O silêncio nas sociais só foi rompido pelas palmas do bebum, exaltado, de pé, quase em êxtase, berrando e olhando para todos à sua volta, incluindo eu que tinha virado seu "amigo" do momento:
- É o meu guri! Esse é o meu guri!

Semana passada, depois de, graças à falta de álcool no sangue, eu quase ter um troço atrás da goleira do Estudiantes na hora do gol do Nilmar e vencermos a nossa primeira Sul-Americana, me lembrei desse dia, na Copa Sul, ou Sul-Minas, quando vi o Edinho, volante, xingado, estropiado, uma camiseta feita à caneta na última hora homenageando sua cidade de origem – e eu sempre louvo aqueles que não esquecem as origens – o estereótipo do tosco num time de craques como Alex, Nilmar e D'Alessandro, levantando a taça como capitão guerreiro de um time, que apesar de não ter jogado bem o tempo todo, buscou a vitória na raça, na luta, como se fosse uma divida daquelas toscas, de Casçapava, de Ademir Kaefer, de Anderson. Naquele momento, um bebum em algum lugar do estádio deve ter se levantado, olhado para os lados, orgulhoso, e dito, vibrante e feliz:
- Esse, colorados, esse é o meu guri!

E saiu correndo do estádio porque a sede era grande.

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