sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

LÁGRIMAS DE BIGORNA.

Por Marcelo Benvenutti


Uma das minhas primeiras lembranças de assistir a um jogo do Colorado, assim eu chamava quando era criança, foi num domingo em 1979, ano de nosso último título nacional, o imbatível título conquistado de forma invicta, em um jogo do Gauchão. O Inter terminaria o campeonato em terceiro, atrás do Esportivo, vergonha suprema daquela época, 10 pontos atrás "deles", quando a vitória por três pontos era coisa de inglês e a gente achava absurdo. Naqueles anos, um 0x0 bem tramado valia bem mais que hoje, é verdade. E os clubes do interior se aproveitavam disso para tirarem suas lasquinhas da Dupla no Regional.

Não era o caso daquele domingo. O Inter enfrentava o São Borja. Estava encaminhado para a fase final. O jogo não valia muito, portanto. Maneira de dizer. Os jogos por pontos corridos sempre valem. Sempre. Mas, naquele domingo, meu pai levou a mim, meu irmão e um primo meu, gremista, que sofria feito um condenado torcendo pelos Betos Fuscãos da vida, um dos maiores goleadores contra da história dos Grenais, com a única finalidade de ver Claudiomiro jogar. Claudiomiro, o Bigorna, como insistia em frisar meu pai toda vez que falava no seu nome.

Claudiomiro surgiu no Inter quase com a mesma idade de um Pelé no Santos. Não era um Pelé, obviamente, mas era uma máquina, literalmente, de amontoar gols. Tantos que em poucos anos de carreira até hoje se sustenta como um dos maiores goleadores da história do Internacional, do Beira-Rio e dos Grenais. O apelido "bigorna" vinha dessa força de romper defesas adversárias com a força física em uma época que os zagueiros estilo Irmãos Pontes despontavam no Rio Grande. Mas toda essa explosão aliada a uma certa tendência genética a engordar e ao mau trato dos inimigos lhe valeram o encerramento da carreira numa idade em que hoje os jogadores estão no auge. Aos 29 anos de idade, Claudiomiro terminava sua luta nos gramados no Novo Hamburgo, nosso adversário de hoje à noite.

Pois nesse domingo, quando Claudiomiro, depois de perambular pelo Rio de Janeiro e por clubes do interior, depois de sair do Colorado após a conquista do hexacampeonato sem nenhum ponto perdido, outro feito inédito entre tantos do centenário time vermelho, voltou ao time de origem. Naquele domingo ele era o centroavante colorado. O camisa nove. Foi por essa razão que meu pai levou os filhos ao estádio, e um sobrinho gremista pra aprender vendo como era ser grande. O Inter venceu por 5 x 0. Era o óbvio naqueles tempos. Menos que isso era vaia.

Claudiomiro, na minha mente de criança, era um gigante, mesmo, até porque estava mais gordo que o Fenômeno hoje, mas a certa altura do jogo, não lembro direito como, o "velho" atacante adentrou a área e fuzilou o goleiro sãoborjense. Olhei para o lado e meu pai não falava nada. Ele simplesmente chorava. As lágrimas escorriam pelo rosto. Muitas lágrimas. Eu, criança, perguntei: Que foi, pai? Ele não falou nada. Chorou mais um pouco e me abraçou. Meu pai não era de se abrir. De abraçar. Mas ali eu senti que aquele cara simbolizava "algo".

Hoje eu sei o que ele simbolizava. E ainda simboliza. Simboliza o espírito que habita em torno daquelas antes turvas águas do balneário do lago Guaíba. Aquelas lágrimas ainda escorrem hoje quando o Inter entra em campo. Aquelas lágrimas deveriam escorrer sempre, todas às vezes, antes do time entrar em campo, pra sentirem na alma que para nós, colorados, não existe jogo ganho. Não existe jogo jogado. Aquelas lágrimas escorrem pelas arquibancadas e inundam o gramado e alimentam as raízes daquele campo sagrado. Aquelas lágrimas, do meu pai, que hoje são minhas, que são a de todos os colorados que realmente compreendem o SER colorado, são as lágrimas de suor que sangram nas camisetas rubras nos dias de grandes jogos e conquistas. Aquelas lágrimas, jogadores colorados, são as que fazem a história de uma alma pulsante. Pensem nisso antes de entra em campo, seja contra o Novo Hamburgo, União de Rondonópolis ou Barcelona. Respeitem as lágrimas dos colorados. São elas que alimentam seus sonhos de "independência financeira". Respeitem. Ou danem-se!

Para as lágrimas não existem concessões!

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