sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Falta transparência no Inter.

Por Andreas Müller


Agora o boato é de que Sandro será vendido. Dirigentes do Inter e representantes do Grupo Sonda negam tudo. Dizem que o jogador recebeu apenas sondagens. Uma pena. No Inter desta década, negar a contratação ou venda de qualquer jogador é uma espécie de rito oficial que precede a confirmação de boatos. Daí que, se for mantida a escrita, Sandro está oficialmente vendido. Ontem, aliás, ele apareceu no Beira Rio lesionado. Uniram os pontos? Pois é, eu também acho.

Que o Inter precisa vender jogadores, todo mundo sabe, concorda e assina embaixo. A venda de jogadores é e sempre será a principal fonte de renda do clube. E se podemos vender um volante por abissais R$ 37 milhões, então que assim seja, amém. Mas basta analisar o contexto para se chegar a uma indigesta constatação: há, neste Inter, uma estranha e incontida sanha vendedora. O Inter, meus amigos, vende demais. Mais do que precisa. Mais do que deveria.

Desde 2006, o Inter é o clube que mais exporta jogadores em toda a América Latina, segundo este levantamento (clique para abrir). Nesse período, a venda de talentos como Renan, Alex e Nilmar gerou uma receita bruta de 141,4 milhões de dólares. Lógico que nem todo esse dinheiro parou nos cofres colorados. Mas não é preciso colocar na ponta do lápis para saber que esse valor é altíssimo. Para se ter uma ideia: o São Paulo, referência do Inter para quase tudo que diz respeito a gestão de futebol, exportou 62,3 milhões de dólares – menos da metade do exportado pelo Inter – nos últimos três anos.

Se a venda de Sandro for confirmada, o Inter poderá fechar o ano com um superávit de quase R$ 50 milhões, uma enormidade. Eu, como colorado e conselheiro do clube, fico muito feliz. Mas ao mesmo tempo sou acossado por uma maldita pulga atrás do meu lóbulo auricular: o que será feito com todo esse dinheiro? E mais: para quê o Inter precisa de um superávit tão monstruoso? Ninguém sabe – a não ser, é claro, os próprios responsáveis pelas negociações. E aí está o grande problema que acomete o Inter desta década: a falta de transparência.

Se o Inter precisa vender, ótimo, que venda. Mas nós, torcedores colorados, temos o direito de saber os porquês. Estamos poupando para bancar o projeto “Gigante Para Sempre”? Estamos juntando dinheiro para formar um grande time? É certo que a diretoria do Inter tem excelentes motivos para justificar vendas de tão alto quilate. Mas esses motivos precisam chegar ao torcedor. Ou, pelo menos, aos conselheiros. Algo está errado quando um clube obtém um “lucro” milionário e nada é dito sobre o que será feito com o dinheiro.

Aliás, seria de muito bom tom se a diretoria do Inter afinasse melhor seu discurso. Há tempos que o Inter mantém o hábito de vender bem mais do que “um jogador por ano”. Em 2006, logo depois de conquistar a Libertadores, perdemos Sobis, Tinga e Bolivar. Em 2007, Fabiano Eller, Ceará e Alexandre Pato. Em 2008, foram embora Renan, Iarley e Fernandão. Agora, em 2009, já despachamos Edinho, Alex e Nilmar. Será que o Sandro também vai?

A prática é bem diferente da retórica colorada do "um jogador por ano". Está na hora de os dirigentes assumirem que ter 100 mil sócios não alterou em nada a política de vendas do Inter. E que, para manter as contas em dia, o clube precisa se desfazer não de um, mas de três jogadores por ano. Transparência, vocês sabem, sempre cai bem.

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